O Futuro também é nosso
Desde
os tempos de Pedro II, há brasileiros imaginando o futuro em obras de ficção
científica
Antonio Luiz M.
C. Costa
Vários
autores brasileiros já pensaram sobre a ficção científica (FC) e sua história,
como Raul Fiker (Ficção Científica -
Ficção, Ciência ou uma Épica de Época?, L&PM, 1985), Gilberto
Schoereder (Ficção Científica,
Francisco Alves, 1986), Léo Godoy Otero (Introdução
a uma História da Ficção Científica, Lua Nova, 1987) e Braulio Tavares (O que É Ficção Científica, Brasiliense,
1992). Essas obras, porém, foram breves introduções ou guias de leitura para
fãs do gênero, presas demais a seus critérios e convenções.
A obra de
Roberto de Sousa Causo, Ficção
Científica, Fantasia e Horror no Brasil, 1875 a 1950 (UFMG, 2003), projeto
orientado por professores da Faculdade de Letras da USP, é a primeira a abordar
especificamente a FC no Brasil e a considerar a teoria literária e a história
social para colocá-la em um contexto mais amplo. Sem nada da estrutura rígida e
indigesta de uma típica tese acadêmica, é uma leitura agradável e reveladora
para aficionados da FC e da cultura brasileira e uma nova referência para historiadores
da cultura e críticos literários.
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NEM SÓ DE FUTURO VIVE A FC O que é ficção especulativa, segundo Causo Causo delimitou seu objeto de estudo – a ficção especulativa
– de uma forma não usual para a crítica literária tradicional, nem para a
maioria dos autores e fãs do gênero. Não se trata de uma subliteratura menor
e ou de fuga kitsch da realidade.
Também não é necessariamente marcada pela antecipação do futuro, pela
promoção de utopias ou pelo uso e valorização da ciência. Não é um gênero
encerrado em convenções tradicionais, como o das histórias de detetive. A
característica que define a ficção especulativa é a figuração de mundos além
dos cânones da experiência comum e da noção costumeira de “real”, mas que
têm, cada um deles, uma lógica com a qual o leitor precisa se familiarizar e
que o autor se obriga a manter – dentro de determinado texto, bem entendido
(é comum que obras do mesmo autor proponham realidades contraditórias).
Certamente não são ficções arbitrárias nas quais “tudo pode acontecer”. Um exemplo é o subgênero da FC recentemente fundado pelo
romance The Difference Engine
(1991) de William Gibson e Bruce Sterling, geralmente chamado de steampunk, do qual os filmes As Loucas Aventuras de James West e A Liga Extraordinária são subprodutos
paródicos. Desenvolve um século XIX alternativo, no qual a tecnologia do
vapor teria ido muito além do que historicamente foi. Existiriam
computadores como os projetados por Charles Babbage em 1832 e as máquinas
maravilhosas sonhadas por Jules Verne e H. G. Wells, junto com os
preconceitos e os problemas políticos e sociais da era vitoriana. Esse mundo
não pertence ao passado, ao futuro, nem ao espaço interestelar. Não é uma
utopia nem uma sátira no sentido convencional. É uma ficção que, entre outras
coisas, relativiza o nosso “cronocentrismo” e faz ver nossa própria realidade
sob outra luz. Além da ficção científica propriamente dita, que especula
sobre desenvolvimentos das ciências naturais e da tecnologia (em sua vertente
hard), ou da cultura e da sociedade (na versão soft), cabem nessa definição seus gêneros irmãos, a fantasia e o
horror. Nessa perspectiva, obras como a Odisséia de Homero, a História
Verdadeira de Luciano de Samósata e as Viagens de Gulliver de Jonathan Swift, bem como as incursões no
fantástico de escritores canônicos, como Machado de Assis (O Imortal), são precursores e modelos
legítimos para a ficção especulativa moderna que, mais que a manifestação
específica de uma época, é a continuação de uma tradição paralela à da
corrente principal da literatura. |
Como marco
inaugural do romance científico no Brasil, Causo indica O Doutor Benignus (1875), de Augusto Emílio Zaluar, escrito para
jornais do Rio de Janeiro. Foi confessadamente influenciado por Verne e pelo astrônomo
Camille Flammarion, mas já mostrava características típicas das primeiras
gerações de assimilação brasileira do gênero.
Ao
contrário dos heróis de Wells e Verne, prontos a aplicar com ousadia as
descobertas científicas de sua época e defender especulações ainda mais
arrojadas, a ciência do Dr. Benignus é passiva e contemplativa. Sua ocupação é
exibir erudição e sugerir utopias redentoras, como a fundação de uma comunidade
em uma ilha da América Central na qual as “nações principais” atrairiam “à civilização
pela santa comunhão do trabalho, as raças ainda mergulhadas na indolência e no
barbarismo”.
No início do folhetim, o desiludido Benignus se isola do convívio humano em uma fazenda de Minas Gerais. Ao descobrir, porém, um papiro com uma inscrição indígena que sugere vida no Sol, lança-se a uma expedição ao interior do Brasil que vai dar à ilha do Bananal. Reúne, para isso, recursos tecnológicos modernos, mas quase não faz uso deles. A maior parte da história reside na descrição da natureza e de suas atrações e perigos, aos quais o distraído doutor sobrevive graças à coragem e ao senso prático de Katini, seu fiel cozinheiro peruano.
O toque especulativo vem do sonho de Benignus com a visita de um ser espiritual proveniente do Sol que o cumprimenta por sua “impaciência de saber” e o exorta a infiltrar o bem na alma de seus semelhantes. Mas no final o leitor descobre que o misterioso papiro havia sido forjado por Katini para arrancá-lo de sua melancolia e desesperança. O saldo material da aventura é que Benignus e seu patrocinador norte-americano – o engenheiro James Wathon – juntam-se para criar uma companhia agrícola e industrial na ilha do Bananal, na qual os filhos do doutor serão “grandes proprietários agrícolas” e Katini o intendente.
A postura de espectador é uma característica muito freqüente na FC brasileira, principalmente (mas não só) em seus primeiros tempos. Nota-se também a falta de sociedades, congressos e institutos científicos como os citados em romances de Wells e Verne.
Como em a Viagem à Aurora do Mundo (1939), de Érico Veríssimo, influenciado por A Máquina do Tempo de Wells, O Mundo Perdido de Conan Doyle e a Viagem ao Centro da Terra de Verne. Mas em vez de viajar no tempo ou a lugares onde sobreviviam seres pré-históricos, o herói limita-se a criar uma máquina para visualizar a era dos dinossauros. E o objetivo do capitalista que o financia é apenas conquistar a jovem filha do cientista. Vê na fantástica máquina, quando muito, um meio de entretenimento.
É a visão
de uma intelectualidade que, ao contrário de Marx, acreditava que seu papel era
interpretar o mundo e não transformá-lo. Como disse o crítico Antonio Candido,
“partilhava da ideologia ‘ilustrada’,
segundo a qual a instrução traz automaticamente todos os benefícios que permitem
a humanização do homem e o progresso da sociedade”, quando não via na ciência
apenas mais uma forma de entreter os saraus da burguesia e brilhar nas mansões
dos barões do café.
Esse não
era o pior dos casos. Muitos autores que se meteram a usar a FC para pontificar
a sério sobre o futuro do País e do mundo fizeram um papel muito mais
deplorável.
O caso
mais tristemente célebre é o de O
Presidente Negro ou o Choque das Raças (1926), de Monteiro
Lobato, que leva o preconceito “cordial” de suas histórias infantis às últimas
conseqüências. Um “porviroscópio” revela, em 2228, uma Europa conquistada e
colonizada por chineses e um Brasil acorrentado ao atraso pela mestiçagem –
exceto no sul branco, que se funde à Argentina para formar a segunda nação mais
progressista do planeta.
A primeira, é claro, são os EUA, graças à segregação que impediu que suas raças se “desnaturassem”. A tensão, porém, explode quando uma divisão entre os homens e mulheres da raça branca, provocada pelo movimento feminista, permite a eleição de um presidente negro. A solução é final: o genocídio da raça negra, seduzida em massa pelo ardil de um tratamento alisador de cabelos que esteriliza totalmente o usuário.
O modelo
era The Unparalleled Invasion (1910),
do norte-americano Jack London, em que a ameaça de uma China finalmente
desperta, com 800 milhões de habitantes, é debelada por um ataque biológico que
extermina sua população e permite aos brancos vitoriosos ocupar seu território.
Buck Rogers, primeiro herói da FC em quadrinhos (1929), também lutou contra o
futuro “perigo amarelo”.
A idéia,
vê-se, não era especificamente brasileira. A cor local está na postura de
espectador do protagonista – hóspede do inventor, estrangeiro, do
“porviroscópio” – e no caráter da ameaça: a raça “inferior” não é uma rival
perigosa, mas um estorvo passivo à ordem e ao progresso.
A Liga dos Planetas (1923), de Albino
Coutinho, conta uma viagem à Lua, Marte e Vênus. Em toda parte, o autor
ufana-se das belezas do Brasil. Mas quando um grupo de venusianas pede para
conhecer esse País encantador, desconversa: “Se as levo e elas se assustam ou
lhes contrariam as nossas modas, os vestidos pelos joelhos (...), os homens
pardos nos passeios das ruas principais, entorpecendo a marcha dos transeuntes…
Não voltarei por aqui para evitar desgostos”.
Essa viagem, vale notar, revela-se simples sonho. Usar tal recurso como veículo é um hábito irritante a que recorreram muitos dos primeiros autores brasileiros de FC para fugir da dificuldade de pensar nos meios de realizar suas especulações e da responsabilidade de discutir seriamente as conseqüências de suas utopias.
Foi
especialista nessa tática o primeiro autor sistemático de FC no Brasil: o
arquimisógino Berilo Neves, cujos contos foram reunidos nas coletâneas A Costela de Adão (1932) e Século XXI (1934). Em um deles, o
protagonista viaja em sonho de 1927 para 2000 e acorda em um Rio de Janeiro
limpo de sujeira e de mulheres: “A humanidade evoluiu. Nós somos criados
sinteticamente por processos químico-biológicos. A estufa substituiu o ventre
materno, e a mulher perdeu sua principal função na terra.”
Teve um
imitador: Gomes Netto. Em seu O
Cronomóvel (1934), o protagonista, que dispõe (em sonho) de uma máquina do
tempo, prefere bisbilhotar a vida de sua noiva a investigar os mistérios da
história.
Sua
contrapartida feminina foi Adalzira Bittencourt, fundadora da Academia
Brasileira Feminina de Letras, que em Sua
Excia. a Presidente da República no ano 2500 (1929), descreveu um Brasil
tão rico e poderoso quanto racista e xenófobo. Os negros foram expulsos e os
imigrantes proibidos, salvo se “privilegiados de Deus”. Graças à ascensão das
mulheres na política, que implementaram um rígido programa de eugenia e higiene
social, o mais comum dos homens mede 2,40 metros.
Não é feminismo como hoje o entendemos. A mulher não concorre com o homem no trabalho: seu lugar é em casa – ou na política, na qual se mostra impiedosa. A heroína, presidenta Dra. Mariangela de Albuquerque, apaixona-se por um pintor do qual vira os quadros maravilhosos, mas ordena a eutanásia do amado ao descobrir que se trata de um anão corcunda. “Era mulher”, conclui triunfalmente a narrativa.
Felizmente, há também precursores dos quais os atuais autores brasileiros podem se orgulhar. Um deles é Afonso Schmidt com a impagável novela Zanzalá, publicada em 1936 no jornal Estado de S. Paulo e em 1949 em livro. Na comunidade do Vale de Zanzalá, na Cubatão de 2036, televisores e viagens interplanetárias convivem com ritos afro-brasileiros. Nessa utopia cabocla, vive-se junto à natureza, em choupanas desmontáveis. As pessoas usam maiôs despojados e se tratam por apelidos.
Os
dançarinos Zeca e Tuca compram uma briga contra os figurões do Instituto
Musical para que Flanela, um maluco local, possa fazer seu concerto, que acaba
por ser um sucesso mundial. Depois, os zanzalianos são atacados por europeus
liderados por “trogloditas de cartola”. Esses primitivos aparecem em seus
televisores “em formações compactas, com os capacetes de aço brilhando ao sol”,
conduzindo bandeiras e máquinas de guerra.
Multidões
de zanzalianos curiosos inundam de surpresa o campo de batalha, a ponto de
romper as linhas do inimigo e determinar sua “derrota”. Milhares de zanzalianos
morrem, mas o castigo dos inimigos se limita a um banho prolongado, depois do
qual seus uniformes piolhentos são trocados pelos trajes leves e higiênicos de
Zanzalá.
Outra boa
história é de Gastão Cruls: A Amazônia
Misteriosa (1925), por fim uma aventura de verdade. Perdido na selva, o
narrador encontra as amazonas, herdeiras das “vestais” (as aclla) do Império Inca, das quais recebe uma beberagem que o põe em
contato com o espírito de Atahualpa. Este lhe relata as conquistas de sua
civilização e as atrocidades dos europeus que a destruíram. O narrador é então
recebido por um pesquisador alemão que descobriu como combinar espécies
diferentes e experimenta com seres humanos, aproveitando-se do desprezo das
amazonas por seus filhos homens. O cientista, porém, quer agora um cérebro europeu. Sua ambição se volta contra a
própria esposa e contra o narrador e ambos fogem com a ajuda de uma jovem e
sagaz amazona.
Menos
interessante e premonitório – e cientificamente mais equivocado –, mas bem
escrito e passável como aventura, é A
República 3000 (1927), de Menotti del Picchia. O capitão Fragoso, descobre,
nas selvas do Brasil Central, uma cidade supertecnológica fundada por cretenses
que já se preparam para emigrar para as estrelas – e uma “princesa inca”
branca, Raymi, que o romântico capitão resgata dessa utopia fria e insensível.
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A PULP ERA
QUE NÃO HOUVE A fragilidade da vertente mais popular da FC no Brasil Esta expressão de Causo refere-se a uma pesquisa do
norte-americano Sean Wallace, que perguntou a brasileiros como foi, neste
País, a era de prosperidade das revistas e livros populares sobre ficção
especulativa em papel barato e com capas apelativas, que na maioria dos
países pesquisados teve seu auge dos anos 20 aos 40. A resposta, obviamente,
é que aqui isso não existiu. Nessa época, a
maioria dos brasileiros era analfabeta. Não havia um mercado viável para
literatura popular. Elitista e bacharelesca, a minoria letrada pouco se
interessava por ciências naturais e menos ainda por especular sobre seu
futuro. Tolerava, no máximo, que crianças e jovens passassem o tempo com os
clássicos de Verne e Wells publicados pelas coleções Paratodos e Terramarear
e os contos publicados pela revista Eu
Sei Tudo. Conseqüentemente, a maioria dos escritores – mesmo aqueles
com queda para o fantástico, como Guimarães Rosa – deixaram de lado a ficção
especulativa para se dedicar a correntes literárias que, embora também não
proporcionassem um meio de vida viável, ao menos conferiam mais prestígio
dentro da elite culta. Dos anos 50 em diante, houve algum espaço para a
literatura pulp – principalmente,
mas não só, na forma de traduções de suas versões norte-americanas ou européias
– mas a ficção científica mostrou-se o ramo menos bem-sucedido da empreitada,
salvo por A Ordem do Dia (1983),
sátira de Márcio Souza. Já as noveletas de amor (como as da famigerada Coleção Sabrina) e de aventura
continuam a ser publicadas em livrinhos encontrados nas bancas de revistas,
muitos na forma de pseudo-traduções, escritas por brasileiros com pseudônimo
estrangeiro. Um deles, Ryoki Inoue, tentou quatro títulos de FC sob os
irônicos pseudônimos de Stephen
McSucker e Edward Gapfinder,
mas foram dos menos bem-sucedidos entre os 1.060 que já escreveu (de faroeste
e espionagem, na maioria), que fazem dele, segundo o Guiness, o escritor mais prolífico deste planeta. Até os anos 60, pelo menos, contos de espiões e detetives
chegaram a fazer certo sucesso, através de revistas tipicamente pulp, como X-9 e Ellery Queen Magazine.
Suas equivalentes em FC, porém, foram poucas, tardias e de vida curta. Causo
cita Cine-lar Fantastic (doze
edições, 1956-1960), Galáxia 2000
(seis edições, 1968), Magazine de
Ficção Científica (vinte números, 1970-1971), Isaac Asimov Magazine (25 números, 1990-1993) e Quark (oito números, 2001).
Aparentemente, a semi-alfabetização do País não bastou para tornar a FC
interessante e compreensível. Para Causo, que escreveu no início de 2002, “o tempo das
revistas de FC, sempre em dificuldades para sobreviver no mercado brasileiro,
já passou”. Mas enganou-se: em setembro de 2002 foi lançada a trimestral Scarium MegaZine. Atualmente (dezembro
de 2003) em seu número sete, é a primeira a reservar a maior parte de seu
espaço a autores nacionais. Não é fácil encontrá-la em bancas, mas pode-se
assiná-la e comprar números atrasados pela internet. |
Poderosas
civilizações ocultas, como as de A cidade
perdida (1948) e A serpente de bronze
(1949) também foram especialidade de Jerônymo Monteiro. Não foi o primeiro
autor de FC no Brasil, como às vezes se diz, mas sem dúvida foi um dos que mais
a popularizou. Sua melhor obra – uma das jóias do período – foi 3 meses no século 81 (1947). Um
brasileiro conhece o autor de A máquina
do tempo e promete realizar o que ele imaginou. Com ajuda de um grupo de
médiuns de São Paulo, encarna-se em um industrial do ano 8000 que produz o
“raio da morte” usado na guerra com os marcianos. Indignado com as deficiências
dessa sociedade, é cooptado pela resistência e lidera uma rebelião que termina
com um holocausto global e a fundação de uma sociedade alternativa no que restou
da Amazônia.
Não custa
citar alguns dos autores brasileiros de livros de FC da segunda metade do
século XX, ainda que estejam fora do âmbito da obra de Causo. Hoje, o mais
conhecido é Jorge Luiz Calife. Seguidor de Arthur C. Clarke, deu-lhe a idéia
para 2010 (continuação do clássico 2001) e publicou seis livros
desde 1985. O mais recente é As Sereias
do Espaço (2001), uma coletânea de contos que retoma uma velha tradição
brasileira: desenvolver temas típicos da FC dos países centrais, mas com toques
nacionais de humor, ironia, sentimento e sensualidade.
A
sexualidade, vale notar, é um dos traços mais característicos da FC nacional
recente. Uma das publicações mais recentes no gênero é uma engraçadíssima
antologia organizada por Gerson Lodi-Ribeiro, Como era gostosa a minha alienígena! (2002), 21 contos que
exploram o tema das formas mais inesperadas. É sintomático que, no subgênero da
FC utópica, a obra mais interessante dos últimos tempos tenha sido Amorquia (1991), de André Carneiro: uma
sociedade futura na qual o sexo é ensinado e praticado nas escolas e a
fidelidade, considerada uma doença mental.
O segmento
oposto, a distopia – descrições de um futuro ameaçador, como em 1984 – teve seu auge, logicamente,
durante a ditadura militar, com Não verás
país nenhum (1981), de Ignácio Loyola Brandão que descreve um Brasil
extremamente autoritário, aterrorizado, violento e ecologicamente devastado.
A FC com
caráter esotérico ou espiritualista não é exclusiva destas terras – vide Doris
Lessing – mas é particularmente comum neste País, por razões óbvias. Para os
brasileiros dos tempos estudados por Causo, uma sessão espírita parecia uma
forma mais plausível e compreensível de viajar no tempo do que uma máquina
estrambótica, épocas mais recentes continuaram a usar o mesmo recurso, agora
para viajar no espaço.
Sem contar
os textos “psicografados” por Chico Xavier e outros sobre a vida em outros
planetas (inclusive em Marte, antes das fotos da Voyager acabarem com as
ilusões de Flammarion e Kardec), mas apenas as publicadas como ficção, vale
citar Contos do amanhã (1978) de Zora
Seljam.
Curiosamente,
a tradição foi retomada pela autora norte-americana Patricia Anthony, que em
1997 fez do Brasil o cenário de Cradle of
Splendor (Berço Esplêndido, mas
ainda sem tradução em português). Nosso país torna-se uma potência mundial e
choca-se como os EUA quando a ditadora Ana Maria Bonfim põe em uso uma
tecnologia antigravitacional, aparentemente fornecida por inteligências
alienígenas através de um médium.
Não se
pode esquecer de Rubens Teixeira Scavone (sete livros, de 1961 a 1993),
literariamente dos melhores e um especialista em outra bem compreensível
fantasia nacional – o contato com OVNIs e alienígenas muito mais avançados do
que nós. A tradição de especular sobre poderosas civilizações ocultas em nosso
planeta também continua viva no Brasil, como mostra Os Deuses Subterrâneos (1994), do atual ministro Cristovam Buarque.
Já as guerras futuristas e a exploração e conquista de planetas desconhecidos, clássicos na FC norte-americana, são aqui muito raros – o que é natural em um país vítima, e não protagonista do imperialismo.
Três
escritores famosos, é verdade, fizeram do Brasil a futura potência dominante do
planeta e a cabeça de um poderoso império interestelar. Só que foram norte-americanos:
Lyon Sprague de Camp e sua esposa Catherine Crook, nos oito livros da saga Viagens Interplanetarias (assim mesmo,
em português), escritos de 1951 a 1991 e John Wyndham, na coletânea The Outward Urge (A Ânsia de Expansão,
1959), que culmina no conto Space is a
Province of Brazil.
De Camp foi um dos “monstros sagrados” da idade de ouro
da FC nos EUA, tanto quanto Isaac Asimov e Arthur C. Clarke. Destacou-se, entre
eles, pelo realismo social, histórico e científico do seu trabalho e sua obra é
muito cultuada em seu país. Não teve, porém, repercussão nem seguidores no
Brasil. Alguns de seus livros foram traduzidos, nos anos 70, pela Francisco
Alves, mas há muito estão esgotados. É mais fácil encontrá-los (e aos livros de
Wyndham), em Portugal, publicados na coleção Argonauta. A aventura do
imperialismo foi o futuro que menos eco encontrou na alma nacional.
Não há muitas
edições de ficção científica brasileira suficientemente recentes para serem
facilmente encontrados nas livrarias, mas na Internet há um bom número de sites com textos e informações. Para o
leitor interessado, sugerimos os seguintes:
Scarium on line – dos editores da
revista Scarium MegaZine, sobre ficção científica, horror e fantasia. Inclui
contos nacionais, artigos e resenhas, e-books gratuitos e um Catálogo de Ficção Científica Brasileira,
compilado por Marco A. M. Bourguignon.
http://www.scarium.com.br/principal.phtml
O doutor
Benignus de Augusto Emílio Zaluar (resumo)
http://www.blogdoromance.com/Blog99.html
A Amazônia
Misteriosa, de Gastão Cruls (texto integral)
http://www.visitamazonas.com.br/bibliotecavirtual/indice.php?idLivro=5171
Zanzalá, de
Afonso Schmidt (alguns capítulos)
http://www.novomilenio.inf.br/cubatao/zanzala.htm